policlefe

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weddingletter.

ele tava ali, se medindo em frente ao espelho, colocando a ultima peça daquele traje de alta costura, feito sob medida. ajeitou a gola, olhou pra mim com um sorriso e disse: - e aí, tá bom?

é claro que eu não sabia o que fazer, só concordei com a cabeça e respondi: - puxa, coisa fina mesmo! e me aproximei a seu lado para analisar melhor. nós dois, nós dois encostados na parede e olhando pro mesmo espelho comprido no corredor, que nos enquadrava pela metade, mas só que agora nós não disputávamos o espaço, só olhávamos pra mesma coisa: o reflexo dele. vestido de preto. engomado e polido.

paramos por um segundo, mas parece ter levado muito mais tempo que isso. um filme passou na minha cebeça, um filme grande o suficiente pra retornar todas as lembranças que dividimos ali. e apesar disso ser um momento e tanto, desencadeou tantos outros em fração de segundos. a casa agora já não é a mesma. nossos quartos estão vazios, ocupados por poucos móveis. coisas e objetos que nem foram nossos. o único quarto que ainda permanece ali, com todas as coisas, é o de casal.

lembrei das vezes em que ele se trancava em seu quarto e quando eu passava na frente da porta, sentia o cheiro de cigarro. lembrei de quando tocava violão e cantava desafinado, tentando não acordar o velho que sempre teve problema com sono e acordava cedo. mas eu sempre ouvia. às vezes me juntava a ele, dividia canções, cigarros e afeto. lembrei do quanto era dificil usar o banheiro ou o espelho do corredor - o qual eu olhava nosso reflexo agora, lembrando disso tudo - quando ele tinha que deixar o cabelo impecável, antes de irmos pra escola. lembrei até de quando eu ouvia os cds dele no quarto que era meu, mas que antes tinha sido dele. cranberries, alanis, green day, legião, nirvana, offspring e smiths… tava tudo ali. minha adolescência esparramada em sua cama de casal. o quarto dele era bem maior.

e depois de lembrar de detalhes assim, eu percebi que ainda fixava os olhos lá. a nossa casa já não era mais tão nossa. estava um tanto vazia, apesar de ainda ser aconchego, mas definitivamente não a mesma. eu o olhava no espelho com duvida, medo, alegria e emoção.

ele respirou fundo, deu um sorriso que bateu no espelho e foi direto pros meus olhos. uma lágrima ameaçou cair, eu finalmente estava me dando conta do que ele vinha planejando há meses. eu percebi ali que agora tudo mudaria, ele estava dando um passo enorme e fazendo me desvaler de todas as crenças, ou falta de, que eu tinha em relação a sua decisão. eu o beijei na testa, olhei em seus olhos e disse que o amava. desejei uma vida nova maravilhosa. argh, eu nunca soube muito bem o que dizer. de certa forma, acho que as palavras as vezes não dizem muito. nesse momento era meio isso, não sei se disse muito. ao menos, não tanto do quanto queria dizer, mas apenas disse isso e pedi para ir depressa. ele sorriu de novo, ajeitou a gravata e desceu as escadas.

no altar ele chorou. me abraçou forte e chorou. eu não sei se esse foi o momento em que meu irmão realmente percebeu o quanto tudo poderia mudar a partir dali. eu só sei que nada pode ser mais cliche, mas senti que aquilo o deixava feliz e emocionado de uma maneira tão grande, que foi bonito e estrondoso dentro de mim. no fundo, as palavras não disseram muito mesmo, porque eu finalmente pude retribuir seu sorriso sem perceber. e vimos, em um mesmo momento, que as duvidas tinham sumido. e tudo era parte das mesmas respostas.

Posted on Monday, February 8 2010. Tagged with: blablabla
policlefe trocadilhos. a chave mestra do relógio e da laranja. o mecanismo falho dos dias narrado por um procrastinador crônico de sonhos impossíveis, olhares atentos e palavras pouco garantidas. em traços, cores e linhas tudo se transforma. abre-se uma porta de cada vez.
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