parei de ver portas entre o lá e o cá quando já não tinha mais idade pra sonhar. confesso que as extremidades desse caminho me sujeitaram a ser mais ou menos real, lugar onde a vida prefere morar. e daí, quando eu agora digo “de lá pra cá” me referindo ao tempo - desses que me faz ser criança e quase-adulto, na atual extremidade que me encontro - percebo que ainda ter o achismo barato, a coleção de gibis e um sapato social atrás das portas de um único guarda-roupa não me faz melhor do que esperei. na verdade, me faz ver uma confusão tamanha que de antemão jamais poderia imaginar. e ainda vejo todas as coisas que não tenho, na alegria de uma noite nostálgica na não-mesma-rua-augusta ou em um sábado tranquilo revisitando cada momento, que me cobra com preocupação e juros, tudo o que deveria ter me precavido para evitar isso agora. só não estive preocupado. e daí que quando entendo, a velhice não vem mais só em saudade, mas também nos detalhes de minhas mãos e no jeito em que tenho me comportado. ah, se soubesse que seria assim, teria logo pedido uma tequila e um arrego. tão maduro quanto tudo o que já não tenha feito. mastigando a ansiedade, percebo que muito muda, mas há dúvida em saber o que é, ou deixa de ser, “apenas aparente”. só sei que ainda tô mal na cantada, queria mudar um monte de coisas (em mim e no mundo), não consigo me preocupar tanto com o futuro e sou incapaz de decidir se quero ou não sair de casa. é sábado.