policlefe

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to.dry.your.eye.

ela ouvia “she’s falling in love with a monster man” quando encontraram seu corpo. alice não estava feia. acho que nunca foi. era difícil viver sem o close de seu rosto na minha memória. mas eles precisaram ver mais que seu rosto. alice estava no carro, tinha acabado de injetar mais uma dose. não acho que queria partir assim, foi só um acidente. overdose. alice me abraçava como ninguém nunca o fez. e seu rosto estava pouco coberto, havia cortado o cabelo há poucas semanas, mas quase não lembro de ter um cabelo maior. sempre da mesma cor. alice tinha uma pinta ao lado do olho esquerdo e um sorriso inconfundível. não sei se onde ela está agora sorri tanto como faz em minhas lembranças. mas ela o fazia, principalmente quando brincava com seu cachorro ou quando dizia que me amava, sem grandes pretensões. eu retribuía. o sorriso e o amor. alice era feliz, só parecia não saber onde era o seu lugar. lembro que me acordou em uma noite e disse que precisávamos fugir. ah, se eu soubesse ouvir e perceber sua urgência, não teria hesitado na primeira vez em que disse. alice buscava sua casa. a ansiedade era controlada pelas várias drogas que ela ingeria - das mais diversas formas -, capazes de levá-la tão longe. alice gostava das pequenas coisas. “estou andando em circulos”, me disse enquanto apagava mais um cigarro. o cinzeiro vivia cheio. alice foi por acidente. não deixou recados, apenas foi. podia ter batido seu carro, mas ela repousava com um rosto pacífico quando a encontraram. alice, alice. quanta coisa ainda queria ver, ouvir ou falar. ela não fez de propósito, aposto que tenta encontrar “os responsáveis” pra dizer que foi apenas um engano. alice se foi sem saber seu lugar. sem saber que seu lugar não estava longe, era bem aqui. ela é daquelas que não posso abandonar, nem se eu quiser. alice e seu sorriso, seu braço perfurado por ruas sem saída. ainda penso que algo melhor trouxe alice até aqui. eu sempre a pertenci. por obra do acaso ou não, a incerteza traz uma esperança. imagino alice sorrindo daquele jeito inconfundível, dizendo que encontrou o que procurava. seu lugar em mim.


[07.2008]

Posted on Tuesday, September 13 2011. Tagged with: blablabla
policlefe trocadilhos. a chave mestra do relógio e da laranja. o mecanismo falho dos dias narrado por um procrastinador crônico de sonhos impossíveis, olhares atentos e palavras pouco garantidas. em traços, cores e linhas tudo se transforma. abre-se uma porta de cada vez.
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